A lata se atraca na sola d’sapato tingid’e café mal coado, Seu Rosto encara outro rosto e só nota os letreiros
d´ônibus lotado,
encara não a catraca segue na marcha suada
o sol esconde a sombra e tapeia a testa já tonta, goela q’ amarga pede águ’à gravata;
titubeia Seu Corpo na valsa rasteira procura um teto e vê nada aberto;
a loja do posto
à loja do posto bate na porta;
bate, bate, bate, bate
frentista solta “ninguém à vista” o sotaque “ôxi”, vai-se-baiano, reza Ele com terno na mão e careta paulista;
prende olhos no óleo e tanque
tem que fugir da sopa preta
num-Se-arrisca, nem carta de motorista
medo da pista tem, arranque nem vem,
passa dos trinta, "‘tô Pouco e sem muleta";
“tô Velho”, escorrega a ladeira
“dei certo”; esquece-se, "amém", viu
um trilho torto e abandonado
corre,
corre a mil;
o Homem-pede-pega-passagem
aproveita-se e deita no ferro ardente
ferve à espera do trem,
q’Sabe Ele: é nunca que vem.
09/11/2009
05/11/2009
Quando plumas falham
"Tola ou covarde?" - perguntava Leila ao seu reflexo no fundo da garrafa de vinho que erguia.
Pois, o marido da mal amada, depois de confirmar que tinha outra família, por telefone, avisou que ia morar sem nenhuma de suas mulheres. Na Europa que tanto quis.
Que o desgraçado foi promovido berrava Leila, a tola. Já a covarde aguentou dias amarrada por cordas invisíveis na cama: apertaram-na no peito, arrancaram-lhe três quilos ou mais e cogitaram enforcá-la, sim.
Fraquejaram as duas aos próprios pesos, todavia, e adormeceram - no vivo sentido - além da conta.
"Uma mulher, para ser outra, precisa de três dias de dor e um travesseiro macio" - proclamou Leila à segunda garrafa, fazendo pouco caso da vertigem e da campainha.
A reforma na vida de Leila, a autêntica, começou com uma volta de camisola e mão no queixo pelo lar. Era ela um animal indefeso de garras vermelhas e mal pintadas. Invadia o terreno abandonado do predador pelo único prazer da desordem. Arrancou cortinas da sala, flores de vasos e mais vinhos da adega. Riu, só. Depois, cobriu tudo e mais outros metros com revistas e jornais.
"Estamos em obras, eu e eu" - disse para si na borda da terceira garrafa manchada de batom.
Leila, a Leila, sabia tão pouco encarnar a loucura. Ao percebê-la, sua reação foi dobrar um barco com meio caderno de jornal e botar em cima da cabeça. Uma Bonaparte de domicílio, caricata. "Suficiente", dizia. Seguiu trôpega na revolução caseira, marchando ao redor de móveis e empregada.
A partir do salto da quarta rolha, Leila passou a criar, todos os dias, um novo conjunto de roupas para sua serviçal.
"Uniformes são como véus, querida; tem que mudar, substituir, ou tudo acaba" - explicou à quinta, talvez sexta garrafa.
Retalhando os trapos do traidor, coletes viraram saias. Pullovers: cachecóis. Nada se encaixava. Mas assim, disforme, era a impotência sublimada, que durou sete dias e dezenove garrafas de vinho até Fátima, a ex-doméstica, procurar outro serviço.
Na manhã seguinte, foi a independente Leila que se vestiu de empregada. Pegou uma garrafa e foi limpar o vidro da janela da sala.
De corpo leve, tentou frasear, mas, em queda livre, deu com a boca no asfalto. Não houve travesseiro que a amortecesse: tingiu-se de vinho.
Pois, o marido da mal amada, depois de confirmar que tinha outra família, por telefone, avisou que ia morar sem nenhuma de suas mulheres. Na Europa que tanto quis.
Que o desgraçado foi promovido berrava Leila, a tola. Já a covarde aguentou dias amarrada por cordas invisíveis na cama: apertaram-na no peito, arrancaram-lhe três quilos ou mais e cogitaram enforcá-la, sim.
Fraquejaram as duas aos próprios pesos, todavia, e adormeceram - no vivo sentido - além da conta.
"Uma mulher, para ser outra, precisa de três dias de dor e um travesseiro macio" - proclamou Leila à segunda garrafa, fazendo pouco caso da vertigem e da campainha.
A reforma na vida de Leila, a autêntica, começou com uma volta de camisola e mão no queixo pelo lar. Era ela um animal indefeso de garras vermelhas e mal pintadas. Invadia o terreno abandonado do predador pelo único prazer da desordem. Arrancou cortinas da sala, flores de vasos e mais vinhos da adega. Riu, só. Depois, cobriu tudo e mais outros metros com revistas e jornais.
"Estamos em obras, eu e eu" - disse para si na borda da terceira garrafa manchada de batom.
Leila, a Leila, sabia tão pouco encarnar a loucura. Ao percebê-la, sua reação foi dobrar um barco com meio caderno de jornal e botar em cima da cabeça. Uma Bonaparte de domicílio, caricata. "Suficiente", dizia. Seguiu trôpega na revolução caseira, marchando ao redor de móveis e empregada.
A partir do salto da quarta rolha, Leila passou a criar, todos os dias, um novo conjunto de roupas para sua serviçal.
"Uniformes são como véus, querida; tem que mudar, substituir, ou tudo acaba" - explicou à quinta, talvez sexta garrafa.
Retalhando os trapos do traidor, coletes viraram saias. Pullovers: cachecóis. Nada se encaixava. Mas assim, disforme, era a impotência sublimada, que durou sete dias e dezenove garrafas de vinho até Fátima, a ex-doméstica, procurar outro serviço.
Na manhã seguinte, foi a independente Leila que se vestiu de empregada. Pegou uma garrafa e foi limpar o vidro da janela da sala.
De corpo leve, tentou frasear, mas, em queda livre, deu com a boca no asfalto. Não houve travesseiro que a amortecesse: tingiu-se de vinho.
03/10/2009
Ossada (Parte primeira)

"O dono, quando vivo, nunca desconfiou do apetite do canino. À distância, parecia ser nada menos que um capricho do instinto. Pois, duvidar da rivalidade entre um entregador de correspondências e um vigilante é como estender um pano vermelho a um touro: o ataque é uma lei natural e a corrida do homem a salvação. Eram os envelopes, sem maiores explicações, uma afronta ao bicho, que, naquela estreita ruazinha, honrava-se em ser o único cachorro; aquele que devia, por conseguinte, zelar pela segurança do vai-e-vem das cartas. Todos achavam que o animal esgaivotado, com peito aberto, latia por bravura, não fome... de papel"
I - A começar pelos funerais
Havia um cão que comia cartas na casa de meu amigo. No quintal, a bem dizer, pois dali o bicho nunca saía, nem se o dono abrisse, numa convidativa voz fina, a porta da sala para um cochilo no tapete. Era um cãozinho feio, exibido, não há como negar. Se juntassem suas manchas brancas, diriam que era um terço de tal cor; o resto era um marrom escuro, um tanto desbotado, todavia, não era de todo mal para um animal de guarda. O fuço pouco redondo se impunha a quem se metesse com ele: era metade vermelho, talvez, por conseqüência de um fungo pouco cuidado durante sua infância, e no resto, todo normal, quase preto, inclusive os dentes. As orelhas, não, eram prejudicadas e claras de nascença, tanto que, quando ainda era filhote e andava solto pelas ruas, as crianças do bairro o chamavam de “morcego”, sem muito afeto. Algumas mais medrosas até o recebiam com pedras na mão.
Meu amigo adotou aquela figura horrenda, de aura sombria, “por compaixão”, confessou bêbado a um dos vizinhos numa festa típica da cidadezinha. Jurava que o bicho escanifrado era seu maior companheiro, porém, como toda amizade que não esconde a hierarquia, o subordinado cão-morcego cavava seus segredos, como comer trouxas de papel. Quando o bípede saía para trabalhar, as correspondências viravam longos banquetes àquele estômago miúdo.
Tive consciência do fato anos depois da primeira correspondência que enviei, em tinta azul, sem regresso. Lembro-me bem de cada linha, do exagerado formalismo, como o correspondente deleitava-se em ler. A partir da falta de resposta, uma atrás da outra, enviei, durante meses, mais de cem mensagens, mudando a cor da letra, por vezes até a caligrafia e, em outras, remetente, a fim de causar alguma estranheza no antigo comparsa.
Numa manhã quentíssima, de ferver o chão preto da calçada, disseram, o bicho expeliu, entre pedaços de carne e tachos de madeira, a minha assinatura no portão da casa da vizinha. O dono nunca teve conhecimento do estado de seu animal, pois morreu antes, ao engolir um vírus numa noite qualquer.
A mensageira
Comentava-se pelo bairro que a pessoa mais próxima ao falecido era a senhora de mais de sessenta anos que morava na casa ao lado. A voz rouca da velha mulher, não por coincidência, que me avisou da morte de nosso amigo. Mas foi o fiel cão quem passou o número, talvez a contragosto, por vômito, logo depois de expelir meu visto mordido em letras garrafais. Via telefone, a mulher, que agora eu sabia se chamar Isabel, contou-me que seu estimado vizinho não falava com ninguém há meses e o cachorro, já em sua nova residência, tinha o hábito de abocanhar jornais com suas fezes, depois de ingerir toda a ração.
A senhora supôs que as correspondências, bem como os jornais, deveriam ser as refeições secundárias do canino, tal qual uma sobremesa com alguma substância, desconhecida a ela, mas que se mostraria tão prazerosa quanto o açúcar para os humanos. “Não pode ser só capricho”, disse, ressaltando os bons tratos que sempre lhe foram dados, mas não só: pontuou também que se aumentasse a dosagem de ração, o bicho comia sem deixar restos e não deixava de ingerir os papéis grifados; “nem unzinho a menos”, afirmava, com a mais rouca das certezas, pois, dia após dia, contava grão a grão, linha a linha e anotava tudo.
Presumi pelo curso da conversa, que a mulher sugeriria a qualquer momento, caso eu desse ouvidos à sua vocação para investigadora, que o cão escolhia minhas cartas quando os classificados se acabavam, ou quando se enjoava de mastigar o mesmo caderno com artigos desinteressantes e horóscopos ultrapassados; não havia lógica, apenas uma patologia quase incurável que todos os vizinhos tratavam como “coisa de vermes”. A partir das teorias dos seus colegas de bairro, que não faz sentido eu detalhar por estas linhas, Isabel avisou, na mesma ligação, que tentava impor uma dieta mais saudável ao animal à base de carne mergulhada em uma tigela de sal. “Ele come e põe pra fora a papelada”, explicou, revelando sua tática de limpeza.
O velório, marcado para três dias adiante da ligação, não me teve. Aleguei compromissos inadiáveis, que também não convém contar agora, porém, bem sei que poderia ter visitado o corpo de meu velho companheiro. Não viajei os mais de trezentos quilômetros para a cidadezinha menos por preguiça do que pela aversão a cerimônias de morte. Mandei uma carta à senhora Isabel, a punho, dizendo que sentia muito por não ter comparecido e torci para que o carteiro a entregasse num momento em que o cão estivesse satisfeito.
Regime e queda
Acontece que dois meses depois o cachorro cedeu à falta do dono. Ou quem sabe ao sal de Isabel – e espero que ela não me entenda pelo pior viés, mas não há saliva que sobreviva a papel e mineral -; é sabido apenas que morreu de lado, com meia barriga no chão. A verdade é que o bicho, quando vivo, era o único que ainda lembrava com sentimentos da morte de seu companheiro de casa. Eu mesmo, após anos sem vê-lo, e, ainda, sem cartas respondidas, não mais me lembrava que um amigo havia morrido e que, dias antes de sua morte, eu lhe havia enviado uma carta, a mesma versão de tantas outras, cobrando uma velha dívida. Sim. Eis como tudo começou, admito, rendido de vez à mesquinharia: com meus envelopes de cobrança que exigiam, mesmo que educadamente, pouco mais de mil reais. Torturei um animal, torcendo seu intestino com tinta por dinheiro. Unicamente por dinheiro.
Pois tanta culpa, somada a minha última falta, fez-me assinar verbalmente o compromisso de cuidar do funeral do cachorro. Era sábado de manhã quando Isabel me ligou e eu disse que, na tarde do dia seguinte, estaria lá para cuidar dos pormenores. Ela me contou que viajaria no sábado à noite para a casa de sua mãe – muito quis saber quantos anos tinha a ascendente, entretanto, por educada timidez, preferi me abster de tamanha indiscrição – e não poderia participar do enterro, tampouco providenciar uma cova ao animal.
Isabel confiava em mim, devo dizer, até demais. Viajei à minúscula cidade sabendo que permaneceria dois dias, sozinho, na casa de uma desconhecida, que, apesar de tentar cultivar uma relação inversa, bem próxima, ao confidenciar as particularidades de seu ex-marido, inclusive sexuais, por telefone - este maldito utensílio de escape nas horas que se quer tudo menos ouvir as mazelas de um estranho -, sabíamos: ela não fazia idéia de quem eu era por trás da cordialidade vocal.
Incomodava-me ser esta pessoa tão prestativa e amiga da desgraça daquela finada família, pois aquela não me pertencia, e não me consideravam, e isso era claro; mas, por outro lado, confesso que buscava uma maneira de limpar a repugnante sensação de estar envolto por uma crosta suja de valores, de mau olhado, de ter, mesmo sem crença, a certeza de que o mundo não poderia me reservar algo bom se eu não me empenhasse num ato solidário, ou, por ora, maior que minhas causas. Que eu, enfim. Precisava de um banho denso, além da rotina; algo que trouxesse, em sacrifício de meu orgulho e indisposição, um novo rumo, se é que posso dizer, mais consciente de si. Com efeito, por súbita inocência e um motivo mais que tolo, aceitei cuidar de um bicho morto.
(...)
***
Meu amigo adotou aquela figura horrenda, de aura sombria, “por compaixão”, confessou bêbado a um dos vizinhos numa festa típica da cidadezinha. Jurava que o bicho escanifrado era seu maior companheiro, porém, como toda amizade que não esconde a hierarquia, o subordinado cão-morcego cavava seus segredos, como comer trouxas de papel. Quando o bípede saía para trabalhar, as correspondências viravam longos banquetes àquele estômago miúdo.
Tive consciência do fato anos depois da primeira correspondência que enviei, em tinta azul, sem regresso. Lembro-me bem de cada linha, do exagerado formalismo, como o correspondente deleitava-se em ler. A partir da falta de resposta, uma atrás da outra, enviei, durante meses, mais de cem mensagens, mudando a cor da letra, por vezes até a caligrafia e, em outras, remetente, a fim de causar alguma estranheza no antigo comparsa.
Numa manhã quentíssima, de ferver o chão preto da calçada, disseram, o bicho expeliu, entre pedaços de carne e tachos de madeira, a minha assinatura no portão da casa da vizinha. O dono nunca teve conhecimento do estado de seu animal, pois morreu antes, ao engolir um vírus numa noite qualquer.
A mensageira
Comentava-se pelo bairro que a pessoa mais próxima ao falecido era a senhora de mais de sessenta anos que morava na casa ao lado. A voz rouca da velha mulher, não por coincidência, que me avisou da morte de nosso amigo. Mas foi o fiel cão quem passou o número, talvez a contragosto, por vômito, logo depois de expelir meu visto mordido em letras garrafais. Via telefone, a mulher, que agora eu sabia se chamar Isabel, contou-me que seu estimado vizinho não falava com ninguém há meses e o cachorro, já em sua nova residência, tinha o hábito de abocanhar jornais com suas fezes, depois de ingerir toda a ração.
A senhora supôs que as correspondências, bem como os jornais, deveriam ser as refeições secundárias do canino, tal qual uma sobremesa com alguma substância, desconhecida a ela, mas que se mostraria tão prazerosa quanto o açúcar para os humanos. “Não pode ser só capricho”, disse, ressaltando os bons tratos que sempre lhe foram dados, mas não só: pontuou também que se aumentasse a dosagem de ração, o bicho comia sem deixar restos e não deixava de ingerir os papéis grifados; “nem unzinho a menos”, afirmava, com a mais rouca das certezas, pois, dia após dia, contava grão a grão, linha a linha e anotava tudo.
Presumi pelo curso da conversa, que a mulher sugeriria a qualquer momento, caso eu desse ouvidos à sua vocação para investigadora, que o cão escolhia minhas cartas quando os classificados se acabavam, ou quando se enjoava de mastigar o mesmo caderno com artigos desinteressantes e horóscopos ultrapassados; não havia lógica, apenas uma patologia quase incurável que todos os vizinhos tratavam como “coisa de vermes”. A partir das teorias dos seus colegas de bairro, que não faz sentido eu detalhar por estas linhas, Isabel avisou, na mesma ligação, que tentava impor uma dieta mais saudável ao animal à base de carne mergulhada em uma tigela de sal. “Ele come e põe pra fora a papelada”, explicou, revelando sua tática de limpeza.
O velório, marcado para três dias adiante da ligação, não me teve. Aleguei compromissos inadiáveis, que também não convém contar agora, porém, bem sei que poderia ter visitado o corpo de meu velho companheiro. Não viajei os mais de trezentos quilômetros para a cidadezinha menos por preguiça do que pela aversão a cerimônias de morte. Mandei uma carta à senhora Isabel, a punho, dizendo que sentia muito por não ter comparecido e torci para que o carteiro a entregasse num momento em que o cão estivesse satisfeito.
Regime e queda
Acontece que dois meses depois o cachorro cedeu à falta do dono. Ou quem sabe ao sal de Isabel – e espero que ela não me entenda pelo pior viés, mas não há saliva que sobreviva a papel e mineral -; é sabido apenas que morreu de lado, com meia barriga no chão. A verdade é que o bicho, quando vivo, era o único que ainda lembrava com sentimentos da morte de seu companheiro de casa. Eu mesmo, após anos sem vê-lo, e, ainda, sem cartas respondidas, não mais me lembrava que um amigo havia morrido e que, dias antes de sua morte, eu lhe havia enviado uma carta, a mesma versão de tantas outras, cobrando uma velha dívida. Sim. Eis como tudo começou, admito, rendido de vez à mesquinharia: com meus envelopes de cobrança que exigiam, mesmo que educadamente, pouco mais de mil reais. Torturei um animal, torcendo seu intestino com tinta por dinheiro. Unicamente por dinheiro.
Pois tanta culpa, somada a minha última falta, fez-me assinar verbalmente o compromisso de cuidar do funeral do cachorro. Era sábado de manhã quando Isabel me ligou e eu disse que, na tarde do dia seguinte, estaria lá para cuidar dos pormenores. Ela me contou que viajaria no sábado à noite para a casa de sua mãe – muito quis saber quantos anos tinha a ascendente, entretanto, por educada timidez, preferi me abster de tamanha indiscrição – e não poderia participar do enterro, tampouco providenciar uma cova ao animal.
Isabel confiava em mim, devo dizer, até demais. Viajei à minúscula cidade sabendo que permaneceria dois dias, sozinho, na casa de uma desconhecida, que, apesar de tentar cultivar uma relação inversa, bem próxima, ao confidenciar as particularidades de seu ex-marido, inclusive sexuais, por telefone - este maldito utensílio de escape nas horas que se quer tudo menos ouvir as mazelas de um estranho -, sabíamos: ela não fazia idéia de quem eu era por trás da cordialidade vocal.
Incomodava-me ser esta pessoa tão prestativa e amiga da desgraça daquela finada família, pois aquela não me pertencia, e não me consideravam, e isso era claro; mas, por outro lado, confesso que buscava uma maneira de limpar a repugnante sensação de estar envolto por uma crosta suja de valores, de mau olhado, de ter, mesmo sem crença, a certeza de que o mundo não poderia me reservar algo bom se eu não me empenhasse num ato solidário, ou, por ora, maior que minhas causas. Que eu, enfim. Precisava de um banho denso, além da rotina; algo que trouxesse, em sacrifício de meu orgulho e indisposição, um novo rumo, se é que posso dizer, mais consciente de si. Com efeito, por súbita inocência e um motivo mais que tolo, aceitei cuidar de um bicho morto.
(...)
***
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Capítulo Primeiro
25/07/2009
O governador está chegando
-Ele vem mesmo? – murmura alguém atrás de mim.
São grupos de quatro ou cinco pessoas à espera de um governador. Não passam de tal limite, nem de qualquer outro. Ternos pretos, em sua imponente maioria, conversam entre si e cumprimentam outros de blazers cinzentos. Homens e mulheres, todos comem um, apenas um canapé por vez. Pegam um suco, com guardanapo, e conversam baixo. É tudo contido às dez da manhã.
Um velho senhor de blusa marrom aberta e barba grisalha por fazer é o único a pegar trios dos minúsculos doces e juntá-los num guardanapo. A vigilante das mesas arruma os bens casados e olha com indisposição para o homem, que vive o momento concentrado de sua mordida.
A coletiva de imprensa ainda não começou em São Bernardo do Campo. Mas, sem o chefe do estado de São Paulo, alguns jornalistas arrumam uma conversa com um dos figurões do evento para ganhar tempo. O grandioso projeto a ser mostrado é um ônibus movido a hidrogênio para levar e trazer sessenta e três escolhidos pelo trajeto Jabaquara-São Mateus, de trinta e três quilômetros.
Reunidos pela causa maior, a da saúde mundial, os missionários da informação anotam em rabiscos acelerados o que o homem de preto fala. Reúno-me ao grupo. Sem adentrá-lo, porém, já que a roda, que circula uma pequena mesa de vidro, está ocupada pelo primeiro sexteto do recinto: duas jornalistas mulheres, dois jornalistas do sexo masculino, uma assessora e o paciente palestrante.
Pude ouvir:
- Nosso ônibus movido a hidrogênio possui a tecnologia limpa mais barata do mundo, pois...
- O ônibus mais barato do mundo, então? – interrompe um deles, enquanto metralha o papel.
Tentei, em vão, me aproximar da mesa para ouvir as palavras com maior limpidez. Anotava alguns fragmentos que restavam aos meus ouvidos, quando um ser munido de um telefone à rádio puxou o entrevistado pelas mangas e tímpanos.
- Desculpe, terei que sair um pouquinho para acertar alguns detalhes da apresentação – disse o tira-dúvidas, com um resquício de alívio na voz.
Começa a encher o galpão. As câmeras se multiplicam na mesma escala. As pessoas se juntam em conglomerados maiores e as vozes, naturalmente, aumentam de tom. É a margem do desembaraço.
O volume da música eletrônica cresce pelo grandioso salão e um senhor de poucos fios alvos na cabeça, não o dos doces, simula um passo de dança. Os seus colegas de roda entortam o pescoço e deixam claro que não participam da homenagem póstuma a Michael Jackson.
O pop da vez é mesmo o governador do estado de São Paulo, José Serra. Já são quase onze horas e nada dele. Para sua defesa, porém, ele não tinha marcado horário algum e nada podia fazer sobre a ansiedade de alguns convidados. A política, sabemos, deve ser feita com calma.
Aqui, em minha pequena mesa de vidro, as letras saem tortas. Não sou Deus e nem quero só julgar: mas são dezenas de senhoras e senhores que esbarram na superfície em que me apóio sem pedir desculpas.
Um homem de camisa vermelha e pele pálida - de boca fechada, um inglês pedindo passagem - caminha com uma câmera em seus ombros e joga luz sobre aqueles que anotam seus pensamentos em seus bloquinhos. As lentes filmam o ato jornalístico. Os atores, por sua vez, seguem compenetrados nos papéis. A cena dura poucos segundos; pronta para a eternidade televisiva.
- Atenção, senhoras e senhores, dentro de instantes o evento se iniciará com a chegada do governador José Serra – anuncia a voz de locutor.
A música eletrônica dá lugar a um virtuoso, tão infinito, solo de guitarra. Hora de experimentalismo e de novos petiscos, presumo. A fim de imitar o senhor de marrom, mas nem tanto, reúno quatro rosquinhas de creme e chocolate em minha mão. Não dá tempo de saber sobre a repercussão de meu ato, visto que um burburinho paralelo eclode ao meu lado.
- Eu não vou ficar esperando esse cara! – exclama uma jornalista, referindo-se a Serra. Não posso escutar com tanta clareza o resto de sua cólera, mas ela repete a moral “estética além da informação” num volume mais alto, por variados momentos.
Um cantor árabe vocifera agudos dramáticos pelas caixas de som. O evento “Ônibus movido a hidrogênio” já deveria ter começado há quarenta minutos. À frente do meu nariz, quatro pessoas sem terno, gravata ou blocos, conversam mirando todos os pontos cardeais. O que parece ser o mais velho deles usa um boné sindical e compartilha do rosto marcado pelo sol de todos seus colegas. Um grupo autêntico, brasileiro, mas que ali se destoava do resto por serem os mesmos de ontem e sempre, concluí.
O homem de menor estatura do bando, um senhor troncudo, foi bater na madeira por algum motivo que desconheço. Mas era vidro. Rompeu a mesinha em três grandes partes – duas foram ao chão, tilintando.
- Ai que vergonha! – diz uma mulher do grupo, bem maquiada e com brilhantes pela face, enquanto varriam seus pés. Queria dizer que era normal, pois na entrada mesmo eu havia quebrado um copo com gelo, mas, naquele ensejo, só consegui sorrir. O que serviu para aumentar o constrangimento da morena.
A voz do locutor, agora em inglês, anuncia que Serra está atrasado. Nada de cerimônia e já faz bem mais de uma hora que a imprensa chegou. Com um imenso crachá de seu veículo de comunicação preso à cintura, um jornalista anuncia sua retirada. “O chefe autorizou”, disse.
O teatro coletivo a hidrogênio não começa, por mais justas e chorosas que são as reclamações. Rumores de um “atraso de duas horas” correm extra-oficialmente. A vez é de duas mulheres abandonarem a missão jornalística ao acompanhamento de uma técnica quebrada de compasso acionado na mesa de som: "tu-tu-tu-pá-tu-pá". Era jazz.
***
Uma hora e trinta e quatro minutos de atraso. Ânimos tentam se acalmar com a MPB do recinto. "E das estrelas que esquecemos de contar”, canta Caetano Veloso, sem saber, a melodia de espera pelos astros de poder. Conto eu mais seis engravatados rumo à porta de saída.
Depois de mais um anúncio radiofônico, enfim, José Serra chega escoltado por uma horda de ternos negros, sob aplausos de seus funcionários, ao lado de secretários e diretores menos célebres. As máquinas fotográficas erguidas no alto cobrem minha visão, contudo, enxergo todos os homens de voz alinhados no palco.
O Secretário Estadual dos Transportes Metropolitanos começa os discursos e cita a importância histórica de ter um ônibus ecológico circulando pela cidade.
- Não podemos repetir o erro do metrô, quando começamos décadas depois das nações desenvolvidas; - diz, prometendo mais quatro coletivos até 2011.
Assim, segundo o engravatado de voz grave e falha, o Brasil, em três anos, se igualará a China de hoje, que possui quatro ônibus ecológicos. Atrás apenas dos onze coletivos japoneses, dos quinze exemplares americanos e dos líderes alemães, que possuem uma frota com trinta.
Todos exaltam Serra. O projeto de 16 milhões de reais não teria saído sem a ajuda do atual governador de São Paulo, dizem.
- Quando era apenas um secretário, ele que financiou a linha ABD, por onde este grande ônibus circulará - exalta um de seus parceiros.
José ergue os olhos e estufa o peito, com as mãos cruzadas na altura de seu colo. O mestre de cerimônias, o mesmo que anunciava em vários idiomas o atraso, informa que gostaria de chamar alguém fundamental para o desenvolvimento do projeto.
Serra dá um passo à frente, em direção ao pedestal, entretanto, o dono do microfone chama um secretário. A platéia ri do agora-adiantado governador, que disfarça com um ar sério e uma declaração ao pé do ouvido de um comparsa. Esforcei-me para ler um palavrão. Em vão.
Demoraria mais dois discursos para José Serra proclamar, por fim. O penúltimo, um deputado co-partidário da região, se perdeu tanto na alocução que terminou por falar sobre a brava luta do PSDB contra a gripe suína. Centrava-se ele, aos tremores, em elogiar o governador a cada cinco palavras, com as orelhas vermelhas e as veias das gargantas saltadas. Serrá o agradeceu com tapas vigorosos na linha de seu pescoço, fazendo-o, magicamente, voltar a sua cor original.
Aplausos, altos aplausos. A maior autoridade de São Paulo, o mago do transporte e da cura, inicia sua fala com uma alusão futebolística. Pergunta, entre seus funcionários, parceiros e jornalistas, quem é palmeirense, como ele. Cita times de três dos secretários e toma a simpatia do público.
- Atualmente, há dois grandes investimentos em tecnologia limpa pelo mundo: o etanol a partir da celulose e as células de hidrogênio - profere Serra, sem parar.
Mas "basta", penso. Já tenho uma frase do governador. Um dos poucos que suportou o aguardo por aspas, eu, de joelhos fracos e cotas editoriais a seguir, tenho que deixar o restante da célebre dissertação, que caminha para a Influenza H1N1, outra vez.
O ônibus continua lá, no segundo plano, coberto por um gigantesco lenço azul. É apenas um coadjuvante do espetáculo, sem previsão de estréia.
São grupos de quatro ou cinco pessoas à espera de um governador. Não passam de tal limite, nem de qualquer outro. Ternos pretos, em sua imponente maioria, conversam entre si e cumprimentam outros de blazers cinzentos. Homens e mulheres, todos comem um, apenas um canapé por vez. Pegam um suco, com guardanapo, e conversam baixo. É tudo contido às dez da manhã.
Um velho senhor de blusa marrom aberta e barba grisalha por fazer é o único a pegar trios dos minúsculos doces e juntá-los num guardanapo. A vigilante das mesas arruma os bens casados e olha com indisposição para o homem, que vive o momento concentrado de sua mordida.
A coletiva de imprensa ainda não começou em São Bernardo do Campo. Mas, sem o chefe do estado de São Paulo, alguns jornalistas arrumam uma conversa com um dos figurões do evento para ganhar tempo. O grandioso projeto a ser mostrado é um ônibus movido a hidrogênio para levar e trazer sessenta e três escolhidos pelo trajeto Jabaquara-São Mateus, de trinta e três quilômetros.
Reunidos pela causa maior, a da saúde mundial, os missionários da informação anotam em rabiscos acelerados o que o homem de preto fala. Reúno-me ao grupo. Sem adentrá-lo, porém, já que a roda, que circula uma pequena mesa de vidro, está ocupada pelo primeiro sexteto do recinto: duas jornalistas mulheres, dois jornalistas do sexo masculino, uma assessora e o paciente palestrante.
Pude ouvir:
- Nosso ônibus movido a hidrogênio possui a tecnologia limpa mais barata do mundo, pois...
- O ônibus mais barato do mundo, então? – interrompe um deles, enquanto metralha o papel.
Tentei, em vão, me aproximar da mesa para ouvir as palavras com maior limpidez. Anotava alguns fragmentos que restavam aos meus ouvidos, quando um ser munido de um telefone à rádio puxou o entrevistado pelas mangas e tímpanos.
- Desculpe, terei que sair um pouquinho para acertar alguns detalhes da apresentação – disse o tira-dúvidas, com um resquício de alívio na voz.
Começa a encher o galpão. As câmeras se multiplicam na mesma escala. As pessoas se juntam em conglomerados maiores e as vozes, naturalmente, aumentam de tom. É a margem do desembaraço.
O volume da música eletrônica cresce pelo grandioso salão e um senhor de poucos fios alvos na cabeça, não o dos doces, simula um passo de dança. Os seus colegas de roda entortam o pescoço e deixam claro que não participam da homenagem póstuma a Michael Jackson.
O pop da vez é mesmo o governador do estado de São Paulo, José Serra. Já são quase onze horas e nada dele. Para sua defesa, porém, ele não tinha marcado horário algum e nada podia fazer sobre a ansiedade de alguns convidados. A política, sabemos, deve ser feita com calma.
Aqui, em minha pequena mesa de vidro, as letras saem tortas. Não sou Deus e nem quero só julgar: mas são dezenas de senhoras e senhores que esbarram na superfície em que me apóio sem pedir desculpas.
Um homem de camisa vermelha e pele pálida - de boca fechada, um inglês pedindo passagem - caminha com uma câmera em seus ombros e joga luz sobre aqueles que anotam seus pensamentos em seus bloquinhos. As lentes filmam o ato jornalístico. Os atores, por sua vez, seguem compenetrados nos papéis. A cena dura poucos segundos; pronta para a eternidade televisiva.
- Atenção, senhoras e senhores, dentro de instantes o evento se iniciará com a chegada do governador José Serra – anuncia a voz de locutor.
A música eletrônica dá lugar a um virtuoso, tão infinito, solo de guitarra. Hora de experimentalismo e de novos petiscos, presumo. A fim de imitar o senhor de marrom, mas nem tanto, reúno quatro rosquinhas de creme e chocolate em minha mão. Não dá tempo de saber sobre a repercussão de meu ato, visto que um burburinho paralelo eclode ao meu lado.
- Eu não vou ficar esperando esse cara! – exclama uma jornalista, referindo-se a Serra. Não posso escutar com tanta clareza o resto de sua cólera, mas ela repete a moral “estética além da informação” num volume mais alto, por variados momentos.
Um cantor árabe vocifera agudos dramáticos pelas caixas de som. O evento “Ônibus movido a hidrogênio” já deveria ter começado há quarenta minutos. À frente do meu nariz, quatro pessoas sem terno, gravata ou blocos, conversam mirando todos os pontos cardeais. O que parece ser o mais velho deles usa um boné sindical e compartilha do rosto marcado pelo sol de todos seus colegas. Um grupo autêntico, brasileiro, mas que ali se destoava do resto por serem os mesmos de ontem e sempre, concluí.
O homem de menor estatura do bando, um senhor troncudo, foi bater na madeira por algum motivo que desconheço. Mas era vidro. Rompeu a mesinha em três grandes partes – duas foram ao chão, tilintando.
- Ai que vergonha! – diz uma mulher do grupo, bem maquiada e com brilhantes pela face, enquanto varriam seus pés. Queria dizer que era normal, pois na entrada mesmo eu havia quebrado um copo com gelo, mas, naquele ensejo, só consegui sorrir. O que serviu para aumentar o constrangimento da morena.
A voz do locutor, agora em inglês, anuncia que Serra está atrasado. Nada de cerimônia e já faz bem mais de uma hora que a imprensa chegou. Com um imenso crachá de seu veículo de comunicação preso à cintura, um jornalista anuncia sua retirada. “O chefe autorizou”, disse.
O teatro coletivo a hidrogênio não começa, por mais justas e chorosas que são as reclamações. Rumores de um “atraso de duas horas” correm extra-oficialmente. A vez é de duas mulheres abandonarem a missão jornalística ao acompanhamento de uma técnica quebrada de compasso acionado na mesa de som: "tu-tu-tu-pá-tu-pá". Era jazz.
***
Uma hora e trinta e quatro minutos de atraso. Ânimos tentam se acalmar com a MPB do recinto. "E das estrelas que esquecemos de contar”, canta Caetano Veloso, sem saber, a melodia de espera pelos astros de poder. Conto eu mais seis engravatados rumo à porta de saída.
Depois de mais um anúncio radiofônico, enfim, José Serra chega escoltado por uma horda de ternos negros, sob aplausos de seus funcionários, ao lado de secretários e diretores menos célebres. As máquinas fotográficas erguidas no alto cobrem minha visão, contudo, enxergo todos os homens de voz alinhados no palco.
O Secretário Estadual dos Transportes Metropolitanos começa os discursos e cita a importância histórica de ter um ônibus ecológico circulando pela cidade.
- Não podemos repetir o erro do metrô, quando começamos décadas depois das nações desenvolvidas; - diz, prometendo mais quatro coletivos até 2011.
Assim, segundo o engravatado de voz grave e falha, o Brasil, em três anos, se igualará a China de hoje, que possui quatro ônibus ecológicos. Atrás apenas dos onze coletivos japoneses, dos quinze exemplares americanos e dos líderes alemães, que possuem uma frota com trinta.
Todos exaltam Serra. O projeto de 16 milhões de reais não teria saído sem a ajuda do atual governador de São Paulo, dizem.
- Quando era apenas um secretário, ele que financiou a linha ABD, por onde este grande ônibus circulará - exalta um de seus parceiros.
José ergue os olhos e estufa o peito, com as mãos cruzadas na altura de seu colo. O mestre de cerimônias, o mesmo que anunciava em vários idiomas o atraso, informa que gostaria de chamar alguém fundamental para o desenvolvimento do projeto.
Serra dá um passo à frente, em direção ao pedestal, entretanto, o dono do microfone chama um secretário. A platéia ri do agora-adiantado governador, que disfarça com um ar sério e uma declaração ao pé do ouvido de um comparsa. Esforcei-me para ler um palavrão. Em vão.
Demoraria mais dois discursos para José Serra proclamar, por fim. O penúltimo, um deputado co-partidário da região, se perdeu tanto na alocução que terminou por falar sobre a brava luta do PSDB contra a gripe suína. Centrava-se ele, aos tremores, em elogiar o governador a cada cinco palavras, com as orelhas vermelhas e as veias das gargantas saltadas. Serrá o agradeceu com tapas vigorosos na linha de seu pescoço, fazendo-o, magicamente, voltar a sua cor original.
Aplausos, altos aplausos. A maior autoridade de São Paulo, o mago do transporte e da cura, inicia sua fala com uma alusão futebolística. Pergunta, entre seus funcionários, parceiros e jornalistas, quem é palmeirense, como ele. Cita times de três dos secretários e toma a simpatia do público.
- Atualmente, há dois grandes investimentos em tecnologia limpa pelo mundo: o etanol a partir da celulose e as células de hidrogênio - profere Serra, sem parar.
Mas "basta", penso. Já tenho uma frase do governador. Um dos poucos que suportou o aguardo por aspas, eu, de joelhos fracos e cotas editoriais a seguir, tenho que deixar o restante da célebre dissertação, que caminha para a Influenza H1N1, outra vez.
O ônibus continua lá, no segundo plano, coberto por um gigantesco lenço azul. É apenas um coadjuvante do espetáculo, sem previsão de estréia.
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22/07/2009
Próximo?
A burocracia é o protocolo da preguiça carimbado em duas vias: a da ordem e a da surdez.
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12/05/2009
Meu aniversário de trinta anos
Estarei eu e minha namorada - que deveria ser noiva. Os maus resultados da economia nos últimos anos e a estagnação de nossos salários bem amigáveis nos farão caminhar com pés no chão e dedos nus. Pelas mesmas causas, comemorarei meu aniversário no bar que era o “de sempre” sete anos atrás. Aquele pouco ambicioso, perto de minha casa. Com efeito, terei tempo para conseguir me arrumar e manter a rotina acesa.
Nunca fui de comemorar fragmentos de minha existência, mas ela, a quase prometida, me convencerá outra vez. Ano sim, ano não, eu acatarei. A verdade é que não esperaria viver tanto tempo com saúde, mesmo em círculos, depois de tamanha falta de cuidados pessoais. Nada mais justo do que tornar minha felicidade de sobrevivente pública, justificarei.
Chamarei os amigos que restarão, sem contar alguns outros conhecidos do trabalho para encher o espaço e manter o emprego a salvo. O convite chegará até a quem não converso há anos e também àqueles comentaristas que todos sentem falta quando não aparecem. Não irão, ainda bem. “Mas eu chamei”, direi, entre um brinde e outro, aliviado por escapar de comentários sobre minha forma física.
A lucidez logo se perderá. As mal-cheirosas declarações de amor subirão com as gotículas do álcool envelhecido na goela. Os mesmos casos serão contados. Mas todos riremos, com detalhes que, saberemos, nunca existiram. O exagero heróico sempre convence e ali, apesar dos pesares, ainda pesará uma democracia. A meu favor.
Os que chegarão mais tarde reclamarão da falta de opção de bebidas e dos mais de trinta graus da noite. Lembrarão do tempo em que o efeito estufa não passava de ameaça e de quando existiam garçons nos bares. “Era tão mais humano!”, exclamará alguém, seguido por risos incontroláveis. Outro retrucará: “Mas em algumas regiões da Europa ainda tem”.
Testemunharei que sim, pois dias antes, tinha visto algo relacionado em um documentário na TV. Mais ou menos por este momento, um homem calmo dará lugar a um grosseiro ser de pernas bambas, voz irrefreável e olhar intumescido, raivoso, talvez frustrado. Alguma disparada, travestida de comentário banal, atingirá bem o peito de minha companheira. Ela tentará disfarçar, defendida por uma máscara natural de tolerância. E eu, com a sensibilidade de muitas cervejas, buscarei um conserto sem lágrimas.
Lembrarei de todas as comemorações engasgadas no decorrer da última década, que tal eu, outra entidade, coloquei o amor de uma amada em prova. Beberei mais alguns goles para as lembranças ficarem mais suportáveis. “Logo, logo acaba”.
A espera do fim, olharei para o rosto dela, sem que ela perceba. Procurarei o sorriso e o olhar de menina crescida que ainda não se percebeu. Vou achar. E lembrarei de quando eu disse que seria por toda a vida.
Pois, em meio a tanta perda de sentido - e haja falta -, ela se manteve ao meu lado.
- Céus, obrigado, ela ainda estará lá.
*este texto foi originalmente publicado em 2017.
Nunca fui de comemorar fragmentos de minha existência, mas ela, a quase prometida, me convencerá outra vez. Ano sim, ano não, eu acatarei. A verdade é que não esperaria viver tanto tempo com saúde, mesmo em círculos, depois de tamanha falta de cuidados pessoais. Nada mais justo do que tornar minha felicidade de sobrevivente pública, justificarei.
Chamarei os amigos que restarão, sem contar alguns outros conhecidos do trabalho para encher o espaço e manter o emprego a salvo. O convite chegará até a quem não converso há anos e também àqueles comentaristas que todos sentem falta quando não aparecem. Não irão, ainda bem. “Mas eu chamei”, direi, entre um brinde e outro, aliviado por escapar de comentários sobre minha forma física.
A lucidez logo se perderá. As mal-cheirosas declarações de amor subirão com as gotículas do álcool envelhecido na goela. Os mesmos casos serão contados. Mas todos riremos, com detalhes que, saberemos, nunca existiram. O exagero heróico sempre convence e ali, apesar dos pesares, ainda pesará uma democracia. A meu favor.
Os que chegarão mais tarde reclamarão da falta de opção de bebidas e dos mais de trinta graus da noite. Lembrarão do tempo em que o efeito estufa não passava de ameaça e de quando existiam garçons nos bares. “Era tão mais humano!”, exclamará alguém, seguido por risos incontroláveis. Outro retrucará: “Mas em algumas regiões da Europa ainda tem”.
Testemunharei que sim, pois dias antes, tinha visto algo relacionado em um documentário na TV. Mais ou menos por este momento, um homem calmo dará lugar a um grosseiro ser de pernas bambas, voz irrefreável e olhar intumescido, raivoso, talvez frustrado. Alguma disparada, travestida de comentário banal, atingirá bem o peito de minha companheira. Ela tentará disfarçar, defendida por uma máscara natural de tolerância. E eu, com a sensibilidade de muitas cervejas, buscarei um conserto sem lágrimas.
Lembrarei de todas as comemorações engasgadas no decorrer da última década, que tal eu, outra entidade, coloquei o amor de uma amada em prova. Beberei mais alguns goles para as lembranças ficarem mais suportáveis. “Logo, logo acaba”.
A espera do fim, olharei para o rosto dela, sem que ela perceba. Procurarei o sorriso e o olhar de menina crescida que ainda não se percebeu. Vou achar. E lembrarei de quando eu disse que seria por toda a vida.
Pois, em meio a tanta perda de sentido - e haja falta -, ela se manteve ao meu lado.
- Céus, obrigado, ela ainda estará lá.
*este texto foi originalmente publicado em 2017.
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06/05/2009
Sob Consulta
Pousei as bagagens, após duas viagens pelas escadarias da enfermaria. Pedi licença sem encarar a recepcionista. De pupilas pousadas nas cavidades que se abriam no pavimento, sentado eu sentia, pelos cantos, que os outros pacientes observavam o atrito de minhas mãos sobre as malas deitadas em meu colo, umas sobre as outras, até o pescoço. Dissimulava a aflição por um ritmo sem quebras ou fim. Dei continuidade à agitação ainda mais desvairadamente, mas, por ora, escondido atrás da falsa mureta que havia erguido, tal qual um avestruz em areias estrangeiras.
“Pode entrar, senhor”, ouvi, estático, por algumas vezes, esperando a confirmação.
O médico veio pessoalmente à sala de espera.
- Está tudo bem com você, senhor? – perguntou, de rosto mais pálido que seu jaleco encardido.
- Não é o que se espera de um visitante nesta ala, não é mesmo? – retruquei.
- Pois não - disse o médico, no limiar da serenidade com o esculacho - Queira me acompanhar até minha sala, por gentileza.
- Com uma condição, doutor.
- Pois não?
- Quero que alguém vigie minhas malas.
- Tudo bem. A secretária fica de olho nelas para você, agora vamos.
- De jeito nenhum, doutor. Perdoe-me desde agora, mas, ela não é a melhor pessoa para desempenhar esta função. Veja. Está rodeada de outros pacientes, sua atenção não estaria focada em um só alvo; no caso, meus pertences, que não são poucos.
- Por que não as leva consigo a minha sala? Posso te ajudar.
- Não gostaria que assim fosse, doutor. Quero me livrar delas.
O homem coçou a parte superior dos lábios e ordenou à ajudante para vigiar a bagagem com derradeira cautela. Vendo-me aliviado, propôs, de maneira cortês, para que eu entrasse em seu consultório. Enquanto fechava a porta, iniciou o que já era esperado:
- Você não está bem, filho.
- Estou assim, como nota. Sem estar bem.
- Antes de examiná-lo, diga, o que há naquelas maletas enormes que tanto te preocupa?
- Livros, doutor.
- Livros?
- Não são de cavalaria, antes que me acuse.
- Longe de mim, filho. O conteúdo daquelas páginas pertence a você, não a mim.
- Não pertencem, não, doutor. São compilações de autores desconhecidos.
- Anônimos?
- Nem tanto. Estão pela internet, devidamente identificados. Quase etiquetados.
- Quer dizer que você coleciona arquivos que encontra pelo computador?
- Não tão exato, doutor. Imprimo e guardo para tentar entendê-los.
- São textos tão complexos assim?
- Em essência, não. Mas a questão que julgo maior, doutor, se mostra bem complexa.
- Queira me explicar.
- Sim, pois é onde mora minha enfermidade, doutor. Digo, por que toda poesia anda tão ex-poesia? E todo trabalho tão trabalhoso? Nem a prosa mais “é”. Não falo somente dos escritos. Entende o limite do palpável?
- Tudo depende da fonte que você bebe, meu caro.
- Mas a garganta, assim como os escritos antigos, pede água nova, doutor. Vida. Vidas. Cansei dos mesmos versos que são “guiados pelo vento”, encontram “um cheiro de saudades”, eufóricos para desfilar as palavras que aprenderam, sem alegoria. Que seja insosso, que falte graça, porém seja original, oras!
Como se mirasse uma certeza com o queixo, o médico balançava a cabeça ao escrever alguma coisa sobre mim, presumo. A caneta percorria com fúria o papel, mas a tinta nem dava seu sinal. Fechou a sobrancelha, entortou o pescoço e pediu para que eu falasse mais.
- Mais? Não estou bem, doutor. De leitor, estou farto.
- Por que não escreve?
- Assim como você faz agora?
- Sim. Mas de maneira original.
- De que adianta, se o mau leitor já pula diretamente para os diálogos?
- E os bons?
- Não lêem.
- O que fazem para adquirirem conhecimento, então?
- Pergunte aos bons. Eu leio pouco. E mal.
- Mas, o que há de errado com os diálogos?
- Ensina-me a vida conversando com outrém?
- É cético, percebo.
- Não, senhor. Aliás, doutor. Retratar em livro o desgaste da nossa comunicação é pendurar a falência humana.
- Prove.
- Eu apenas carrego as provas materiais da decadência, doutor.
- Quer se sentir parte do tal empobrecimento?
- E preciso? Sobre futilidades, converso. Sinto náusea do resto. Porém faço questão de carregar as cópias e os clichês inacabados junto ao meu corpo.
Voltou o homem de branco a escrever. Com um semblante mais preocupado, o doutor, que agora eu percebia ser tão alto quanto escanifrado, levantou seu corpo ossudo e pediu para que eu mantivesse a boca aberta por quanto suportasse. Pegou o estetoscópio e colocou guela adentro. Pensei ser melhor não questionar e suportei por alguns minutos a fria prova que era dada a meu paladar até ele chacoalhar a cabeça, mantendo o ritual.
- O que tenho, doutor?
- Olha, meu caro, não posso afirmar com tanta certeza. Mas é parte de uma epidemia.
- Céus, que vírus?
- É a dúvida. Pelos corredores daqui chamam de “Síndrome Aguda da Presunção Ocular”.
- Nunca ouvi falar.
- Chamam de SAPO. Uma sigla apenas.
- Tinha que vir de algum animal asqueroso. Contagia?
- Sim, mas não sabemos por quais vias. Terei que te manter isolado por um tempo, meu bom homem.
- Como quiser.
- Leve papel e caneta. Espere. Melhor, leve este lápis. E isso daqui.
- O que é isso?
- Uma borracha, meu filho. Agora, vai!
“Pode entrar, senhor”, ouvi, estático, por algumas vezes, esperando a confirmação.
O médico veio pessoalmente à sala de espera.
- Está tudo bem com você, senhor? – perguntou, de rosto mais pálido que seu jaleco encardido.
- Não é o que se espera de um visitante nesta ala, não é mesmo? – retruquei.
- Pois não - disse o médico, no limiar da serenidade com o esculacho - Queira me acompanhar até minha sala, por gentileza.
- Com uma condição, doutor.
- Pois não?
- Quero que alguém vigie minhas malas.
- Tudo bem. A secretária fica de olho nelas para você, agora vamos.
- De jeito nenhum, doutor. Perdoe-me desde agora, mas, ela não é a melhor pessoa para desempenhar esta função. Veja. Está rodeada de outros pacientes, sua atenção não estaria focada em um só alvo; no caso, meus pertences, que não são poucos.
- Por que não as leva consigo a minha sala? Posso te ajudar.
- Não gostaria que assim fosse, doutor. Quero me livrar delas.
O homem coçou a parte superior dos lábios e ordenou à ajudante para vigiar a bagagem com derradeira cautela. Vendo-me aliviado, propôs, de maneira cortês, para que eu entrasse em seu consultório. Enquanto fechava a porta, iniciou o que já era esperado:
- Você não está bem, filho.
- Estou assim, como nota. Sem estar bem.
- Antes de examiná-lo, diga, o que há naquelas maletas enormes que tanto te preocupa?
- Livros, doutor.
- Livros?
- Não são de cavalaria, antes que me acuse.
- Longe de mim, filho. O conteúdo daquelas páginas pertence a você, não a mim.
- Não pertencem, não, doutor. São compilações de autores desconhecidos.
- Anônimos?
- Nem tanto. Estão pela internet, devidamente identificados. Quase etiquetados.
- Quer dizer que você coleciona arquivos que encontra pelo computador?
- Não tão exato, doutor. Imprimo e guardo para tentar entendê-los.
- São textos tão complexos assim?
- Em essência, não. Mas a questão que julgo maior, doutor, se mostra bem complexa.
- Queira me explicar.
- Sim, pois é onde mora minha enfermidade, doutor. Digo, por que toda poesia anda tão ex-poesia? E todo trabalho tão trabalhoso? Nem a prosa mais “é”. Não falo somente dos escritos. Entende o limite do palpável?
- Tudo depende da fonte que você bebe, meu caro.
- Mas a garganta, assim como os escritos antigos, pede água nova, doutor. Vida. Vidas. Cansei dos mesmos versos que são “guiados pelo vento”, encontram “um cheiro de saudades”, eufóricos para desfilar as palavras que aprenderam, sem alegoria. Que seja insosso, que falte graça, porém seja original, oras!
Como se mirasse uma certeza com o queixo, o médico balançava a cabeça ao escrever alguma coisa sobre mim, presumo. A caneta percorria com fúria o papel, mas a tinta nem dava seu sinal. Fechou a sobrancelha, entortou o pescoço e pediu para que eu falasse mais.
- Mais? Não estou bem, doutor. De leitor, estou farto.
- Por que não escreve?
- Assim como você faz agora?
- Sim. Mas de maneira original.
- De que adianta, se o mau leitor já pula diretamente para os diálogos?
- E os bons?
- Não lêem.
- O que fazem para adquirirem conhecimento, então?
- Pergunte aos bons. Eu leio pouco. E mal.
- Mas, o que há de errado com os diálogos?
- Ensina-me a vida conversando com outrém?
- É cético, percebo.
- Não, senhor. Aliás, doutor. Retratar em livro o desgaste da nossa comunicação é pendurar a falência humana.
- Prove.
- Eu apenas carrego as provas materiais da decadência, doutor.
- Quer se sentir parte do tal empobrecimento?
- E preciso? Sobre futilidades, converso. Sinto náusea do resto. Porém faço questão de carregar as cópias e os clichês inacabados junto ao meu corpo.
Voltou o homem de branco a escrever. Com um semblante mais preocupado, o doutor, que agora eu percebia ser tão alto quanto escanifrado, levantou seu corpo ossudo e pediu para que eu mantivesse a boca aberta por quanto suportasse. Pegou o estetoscópio e colocou guela adentro. Pensei ser melhor não questionar e suportei por alguns minutos a fria prova que era dada a meu paladar até ele chacoalhar a cabeça, mantendo o ritual.
- O que tenho, doutor?
- Olha, meu caro, não posso afirmar com tanta certeza. Mas é parte de uma epidemia.
- Céus, que vírus?
- É a dúvida. Pelos corredores daqui chamam de “Síndrome Aguda da Presunção Ocular”.
- Nunca ouvi falar.
- Chamam de SAPO. Uma sigla apenas.
- Tinha que vir de algum animal asqueroso. Contagia?
- Sim, mas não sabemos por quais vias. Terei que te manter isolado por um tempo, meu bom homem.
- Como quiser.
- Leve papel e caneta. Espere. Melhor, leve este lápis. E isso daqui.
- O que é isso?
- Uma borracha, meu filho. Agora, vai!
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09/12/2008
Venda-te
Te chamam de moleque, te estudam sem ciência, te mostram sem decência, te vangloriam, te humilham, te exigem cólera e te cumprimentam para de garfo não comê-la;
te desejam cru, te pedem opiniões formadas, te querem com pés e face no chão, te prendem a esta linha reta, te rejeitam a próclise, te dizem 'não';
te cruzam, te exigem licença, te trombam, te atribuem a alguém, te xingam, te caluniam, te aplaudem por constrangimento, te cospem, te usam para levantar o queixo de outrém, te arranham, te fazem suar, te assopram, te furam o olho, te dizem amar, te desfiam a carne e te pedem para costurá-la em noites de gala;
te rejeitam, te mostram os dentes, te furam com uma bala, te sangram de mentira, te amam, te pedem verdades mal contadas, te envelhecem, te desprezam com voraz sinceridade, te cobrem as feridas e te cobram de volta o que pegaram emprestado sem tanto querer;
te devem;
e quando perguntares o que, te responde um coro de vozes lá do firmamento:
- Tua alma, moribundo.
te desejam cru, te pedem opiniões formadas, te querem com pés e face no chão, te prendem a esta linha reta, te rejeitam a próclise, te dizem 'não';
te cruzam, te exigem licença, te trombam, te atribuem a alguém, te xingam, te caluniam, te aplaudem por constrangimento, te cospem, te usam para levantar o queixo de outrém, te arranham, te fazem suar, te assopram, te furam o olho, te dizem amar, te desfiam a carne e te pedem para costurá-la em noites de gala;
te rejeitam, te mostram os dentes, te furam com uma bala, te sangram de mentira, te amam, te pedem verdades mal contadas, te envelhecem, te desprezam com voraz sinceridade, te cobrem as feridas e te cobram de volta o que pegaram emprestado sem tanto querer;
te devem;
e quando perguntares o que, te responde um coro de vozes lá do firmamento:
- Tua alma, moribundo.
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